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É a educação e não a questão salarial o que deve mobilizar a sociedade, afirma Negri

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Termina hoje à tarde a edição que aconteceu na Ufes do seminário MundoVix. O evento prossegue na semana que vem na UFRJ com o foco em uma outra temática: da relação entre Metrópole, Globalização e Trabalho para as questões sobre direito autoral.

Das palestras que aconteceram por Vitória, fui em algumas. Fiz algumas anotações que não ficaram tão fiéis quanto as da Flávia. Ainda assim, vou me arriscar em postar algumas coisas com ênfase para a palestra de Antonio Negri hoje pela manhã – As Instituições do Comum  na Globalização.

Como comentei, as palestras foram uma continuidade do Seminário de maio de 2007, A Constituição do Comum. A proposta do conceito de Comum seria a possibilidade de construir plataformas de entrecruzamento. Pontos de encontro. Plataforma comum de convivência. Isso não quer dizer que as pessoas tenham que ser reunidas em uma unidade de representação. Mas que sua ação cooperativa e singular possa vir a construir algo que lhes seja comum.

Negri dar o nome de Multidão para essas singularidades que não podem ser representadas mas podem vir a agir em torno de um comum. A produção de riqueza não teria mais sua origem nas fábricas. A metrópole estaria para a Multidão como a fábrica esteve para a classe operária. Negri aponta para uma difusão da produtividade e da criação de valor para o campo das relações sociais.

A fábrica e o social se informatizam e o trabalho se daria em redes que desenham a cidade de forma muito parecida com o que acontece com as redes virtuais na Internet. Exatamente por isso, o Capital passaria a buscar extrair sua valorização através de uma imersão nas relações e na produtividade social – cada vez mais espalhadas pela cidade através de redes de saber.`

Sem se aprofundar na questão, Negri argumentou que o capital financeiro é necessário ao desenvolvimento da humanidade – talvez uma proposição impossível de se ouvir na tal da esquerda tradicional. A questão não seria apontar o capital financeiro como intrinsicamente corrupto. O grande ponto seria saber como gerenciá-lo a partir de dentro e tirar essa separação entre as práticas do mercado e as do social.

De uma maneira geral, Negri critica que aqueles que costumam levantar a bandeira do social não sabem se organizar. Para ele, por exemplo, ”A esquerda na Europa acabou”. Teria acabado, lá e cá, porque ter ficado presa ao passado e insistir em ler a atualidade com as mesmas lentes que Marx leu o seu tempo e lançou uma perspectiva sobre o desenvolvimento do capitalismo. A teoria marxista ainda seria válida mas ela não daria mais conta de uma interpretação política do presente.

De um capitalismo antes caracterizado como industrial, a proposta de pespectiva negriana é caracterizá-lo como capitalismo cognitivo. Segundo Negri, é exatamente quando essa noção de capitalismo cognitivo é aprofundada é que se pode pensar na Constituição de um Comum – por meio da qual uma dada da realidade poderia ser mudada. “Quando a produção se socializa agimos como se o salário tivesse que ser conquistado socialmente”, afirma o filósofo.

Para essa conquista acontecer, dados os atuais meio produtivos, tal como Giuseppe Cocco afirmou no Seminário passado, Negri retoma que é necessário extender a todos o direito à educação. A questão do trabalho assalariado não seria mais o mecanismo fundamental de integração social e elemento pelo qual os sindicatos deveriam se mover. A cidadania, antes talvez entendido como simples conquista salarial, não é mais o resultado a ser alcançado. A defesa é que este seria exatamente o ponto de partida para que o Comum se constitua e haja na sociedade uma mobilização produtiva. “Não nos referimos a uma produção de riquezas mas sim a de pessoas”.

A organização da sociedade não teria nada a ver com o modo industrial. Não existiria a mesma hierarquia virtual. As cooperações que surgem não são organizados e teriam muito a ver com o aleatório. O desafio de agora seria o de organizar capacidades de cooperação em diversos projetos.

Seria necessário quebrar hierarquias. Romper com o “aprisionamento do conhecimento”. Dessa forma, para Negri, é necessário construir o Comum a partir de dentro das instituições. “Fazer instituições do Comum é associado ao saber, interno à Metrópole e que ao mesmo tempo seja capaz de destruir relações desiguais”, afirma o filósofo.

Uma mudança social não seria partidária ou a partir de uma outra forma representacional. Para Negri é necessário, vamos dizer assim, de uma educação, de um exercício para fazer o que ele chama de Multidão e por fim constituir algo tão central ao seu pensamento, o Comum. 

Sobre a versão do seminário que aconteceu em 2007, acesse também

21/05 – “A fuga das fábricas, o encontro nas redes”

24/05 – Internet: “O gato saiu do saco”

24/05 – “A televisão é controle da subjetividade”, diz filosófo

24/05 – “Com a economia intangível, a identidade se torna algo em construção, aberto a mudanças”, diz Antoine Rebiscoul

24/05 – “A Internet é a utopia de que qualquer um comunica”, provoca midiativista espanhol

25/05 – “A mudança não passa pela delegação de representação”, conclui editor da Le Diplomatique

25/05 – Seminário “Cultura e Conflitos no Capitalismo Contemporâneo” via internet

12/06 – A produção do imaterial na cidade

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Gastos sociais na América do Sul segundo o viés ideológico

quarta-feira, 2 de maio de 2007

A associação pode não ser tão simples e direta assim. O estudo Governos de esquerda e o gasto social na América do Sul, de Julia Sant’Ana, indica que, pelas análises dos orçamentos sociais dos últimos anos, existe pouca diferenciação entre governos de esquerda e de direita em relação à evolução e, principalmente, à distribuição dos gastos em uma área em que, grotescamente falando, a marcação de território deveria ser gritante.

Estimulada pela chamada onda de esquerda que cobre a região, Cristiane Batista Santos, citada por Julia em seu estudo, realizou análises para concluir que governos de esquerda que têm maioria legislativa tendem mesmo a gastar mais no setor social. Governos de direita com maioria legislativa, por sua vez, investem menos no social do que governos de direita minoritários.

A análise foi feita tomando o período entre 1980 e 1990 e teria mostrado melhores resultados quando considerado o gasto social agregado em educação e saúde como porcentagem do gasto público total.

Noves fora, Julia avalia que

Se considerarmos governos de esquerda os que defendem a tendência mais universalista e redistribuitiva das políticas sociais, se realmente são eles os que vêem no Estado um instrumento necessário para prover saúde e educação e seguridade social principalmente àqueles mais necessitados, Lula, Kircher, Chávez e Morales ainda têm um longo caminho pela frente.

Leia mais

16/01/07 América Latina – o avanço de que esquerda estamos falando?

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