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É a educação e não a questão salarial o que deve mobilizar a sociedade, afirma Negri

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Termina hoje à tarde a edição que aconteceu na Ufes do seminário MundoVix. O evento prossegue na semana que vem na UFRJ com o foco em uma outra temática: da relação entre Metrópole, Globalização e Trabalho para as questões sobre direito autoral.

Das palestras que aconteceram por Vitória, fui em algumas. Fiz algumas anotações que não ficaram tão fiéis quanto as da Flávia. Ainda assim, vou me arriscar em postar algumas coisas com ênfase para a palestra de Antonio Negri hoje pela manhã – As Instituições do Comum  na Globalização.

Como comentei, as palestras foram uma continuidade do Seminário de maio de 2007, A Constituição do Comum. A proposta do conceito de Comum seria a possibilidade de construir plataformas de entrecruzamento. Pontos de encontro. Plataforma comum de convivência. Isso não quer dizer que as pessoas tenham que ser reunidas em uma unidade de representação. Mas que sua ação cooperativa e singular possa vir a construir algo que lhes seja comum.

Negri dar o nome de Multidão para essas singularidades que não podem ser representadas mas podem vir a agir em torno de um comum. A produção de riqueza não teria mais sua origem nas fábricas. A metrópole estaria para a Multidão como a fábrica esteve para a classe operária. Negri aponta para uma difusão da produtividade e da criação de valor para o campo das relações sociais.

A fábrica e o social se informatizam e o trabalho se daria em redes que desenham a cidade de forma muito parecida com o que acontece com as redes virtuais na Internet. Exatamente por isso, o Capital passaria a buscar extrair sua valorização através de uma imersão nas relações e na produtividade social – cada vez mais espalhadas pela cidade através de redes de saber.`

Sem se aprofundar na questão, Negri argumentou que o capital financeiro é necessário ao desenvolvimento da humanidade – talvez uma proposição impossível de se ouvir na tal da esquerda tradicional. A questão não seria apontar o capital financeiro como intrinsicamente corrupto. O grande ponto seria saber como gerenciá-lo a partir de dentro e tirar essa separação entre as práticas do mercado e as do social.

De uma maneira geral, Negri critica que aqueles que costumam levantar a bandeira do social não sabem se organizar. Para ele, por exemplo, ”A esquerda na Europa acabou”. Teria acabado, lá e cá, porque ter ficado presa ao passado e insistir em ler a atualidade com as mesmas lentes que Marx leu o seu tempo e lançou uma perspectiva sobre o desenvolvimento do capitalismo. A teoria marxista ainda seria válida mas ela não daria mais conta de uma interpretação política do presente.

De um capitalismo antes caracterizado como industrial, a proposta de pespectiva negriana é caracterizá-lo como capitalismo cognitivo. Segundo Negri, é exatamente quando essa noção de capitalismo cognitivo é aprofundada é que se pode pensar na Constituição de um Comum – por meio da qual uma dada da realidade poderia ser mudada. “Quando a produção se socializa agimos como se o salário tivesse que ser conquistado socialmente”, afirma o filósofo.

Para essa conquista acontecer, dados os atuais meio produtivos, tal como Giuseppe Cocco afirmou no Seminário passado, Negri retoma que é necessário extender a todos o direito à educação. A questão do trabalho assalariado não seria mais o mecanismo fundamental de integração social e elemento pelo qual os sindicatos deveriam se mover. A cidadania, antes talvez entendido como simples conquista salarial, não é mais o resultado a ser alcançado. A defesa é que este seria exatamente o ponto de partida para que o Comum se constitua e haja na sociedade uma mobilização produtiva. “Não nos referimos a uma produção de riquezas mas sim a de pessoas”.

A organização da sociedade não teria nada a ver com o modo industrial. Não existiria a mesma hierarquia virtual. As cooperações que surgem não são organizados e teriam muito a ver com o aleatório. O desafio de agora seria o de organizar capacidades de cooperação em diversos projetos.

Seria necessário quebrar hierarquias. Romper com o “aprisionamento do conhecimento”. Dessa forma, para Negri, é necessário construir o Comum a partir de dentro das instituições. “Fazer instituições do Comum é associado ao saber, interno à Metrópole e que ao mesmo tempo seja capaz de destruir relações desiguais”, afirma o filósofo.

Uma mudança social não seria partidária ou a partir de uma outra forma representacional. Para Negri é necessário, vamos dizer assim, de uma educação, de um exercício para fazer o que ele chama de Multidão e por fim constituir algo tão central ao seu pensamento, o Comum. 

Sobre a versão do seminário que aconteceu em 2007, acesse também

21/05 – “A fuga das fábricas, o encontro nas redes”

24/05 – Internet: “O gato saiu do saco”

24/05 – “A televisão é controle da subjetividade”, diz filosófo

24/05 – “Com a economia intangível, a identidade se torna algo em construção, aberto a mudanças”, diz Antoine Rebiscoul

24/05 – “A Internet é a utopia de que qualquer um comunica”, provoca midiativista espanhol

25/05 – “A mudança não passa pela delegação de representação”, conclui editor da Le Diplomatique

25/05 – Seminário “Cultura e Conflitos no Capitalismo Contemporâneo” via internet

12/06 – A produção do imaterial na cidade

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Seminário traz Antonio Negri a Vitória

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Universidade Federal do Espírito Santo vai sediar em dezembro o seminário “Mundo-Vix: A política do comum: Cidades, Democracia e Globalização”. Pelo tema das palestras, o encontro de agora tem muito a ver com o que aconteceu em maio de 2007 na Estação Porto, “A Constituição do Comum: Comunicação e Cultura na Cidade”.

A diferença é que o foco passa da produção cultural para, mais diretamente, as relações de trabalho e políticas. Além disso, desta vez, o filósofo que traz embasamento teórico para ambos os seminários, Antonio Negri, estará no último dia de debates. Michael Hardt, co-autor de Império com Negri, também estará presente.

Uma das teses que direcionam o seminário é o que é caracterizado como ”crise terminal do neoliberalismo e o horizonte de incertezas que se abre.”

Nessa direção, o tema da mesa de Negri será “As Instituições do Comum na Globalização”, onde será discutido a experiência dos governos de esquerda na América Latina em um horizonte enxergado como “não apenas pós-neoliberal, mas também pós-capitalista.”. O filósofo tem formação marxista e são recorrentes suas citações a Foucault, Maquiavel e Espinosa.

A cobertura do evento será feita pelo pessoal do Laboratório de Internet e Cultura (Labic) da universidade através do blogue MundoVix.

Programação: (mais…)

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Sociedade sem jornalismo por um dia

sexta-feira, 7 de março de 2008

Alguém hoje teve a mesma curiosidade que eu tive lá por 2005: Como seria a sociedade sem jornalismo? Pra ser mais exato a pesquisa foi por “como seria a sociedade em o jornalista”.

Segue o resultado do que dois pesquisadores de comunicação me retornaram por email

Eduardo Meditsch, doutor em comunicação pela Universidade Nova de Lisboa

Creio que se só os jornais impressos parassem, não haveria um grande transtorno, pois a sociedade está encontrando outros meios de se informar. As tiragens dos impressos tem caído cinco por cento ao ano, e nem por isso a sociedade se abala isso porque têm o rádio, a Tv e a internet. No recente crack da Argentina, os jornais quase pararam de vender, mas a audiência do rádio explodiu. O problema é se tivéssemos uma greve dos jornalistas de todos os meios, ou seja, se a sociedade passasse alguns dias sem o jornalismo. Provavelmente viveríamos uma sensação de grande insegurança, a boataria seria incontrolável, e as instituições ficariam ameaçadas. Mas se a greve se prolongasse surgiriam novas formas de informação, quer a partir de empreendedores oportunistas, quer através dos movimentos sociais e das próprias instituições (as habituais fontes jornalísticas), que desenvolveriam formas de se comunicar diretamente com a população. E aí, o jornalismo é que teria que provar a sua necessidade e reencontrar o seu espaço, provavelmente exercendo o seu papel com mais qualidade do que tem feito hoje.

Leticia da Costa, doutoranda, na época, em comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo

Trata-se de um assunto um tanto complexo, mas vamos lá: como já sentenciou o prof. José Marques de Melo, a comunicação é a base da vida em sociedade. Na atualidade, essa afirmação tem ainda mais sentido: a “informação” é a principal “moeda” de todos os sistemas sociais. Imagina, por exemplo, que a Embraer feche um contrado de x milhões de dólares e isso não é comunicado ao mercado? O que aconteceria com as bolsas, que são movimentadas por informações e especulações? Um caos total! Decisões políticas importantes, que igualmente não fossem comunicadas? Isso eclodiria uma reação em cadeia, causando sérios prejuízos em âmbito internacional (já que estamos ligados à imensa corrente da chamada globalização).Não. Não podemos viver sem informação, sem o trabalho do jornalismo diário… hoje. Digo mais, sem o jornalismo online, em tempo real. A sociedade caminha juntamente com os avanços na área da comunicação e os sistemas de comunicação se desenvolvem de acordo com as demandas da sociedade. Ambas fazem parte de uma mesma engrenagem: se uma parar, a outra fatalmente deixa de existir.

E o que vc acha?

Ezequiel Vieira

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Calma, Fidel ainda tá na ante-sala

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A idéia era fazer um texto próprio, decente, sobre o afastamento oficial de Fidel do poder de Cuba, no entanto, meio sem tempo pra pensar nisso agora, não seria difícil que o texto acumulasse um amoltoado de lugares-comuns. Também acho cedo de mais pra avaliar algum cenário pós-Fidel: todos sabem da abrangência de minha futurologia e Fidel, ainda, tá vivo.
Mas pra não deixar passar sem nenhum byte publicado, segue trecho da postagem do Alon – Nós e transição em Cuba:

O bloqueio americano contra Havana nada tem a ver com a democracia. Fosse assim, os Estados Unidos romperiam relações diplomáticas coma China Popular e decretariam um bloqueio econômico ao país asiático. O problema é que sem a China a financiar a gastança americana os Estados Unidos teriam mais dificuldades ainda para se manter como a única superpotência militar do planeta. Na falta de coragem para confrontar os chineses, Washington contenta-se em ficar arrumando confusão com Hugo Chávez. Greta Garbo, quem diria?, acabou no Irajá. Aliás, tenho uma sugestão aos papagaios nativos. Peçam o boicote brasileiro à Olimpíada de Pequim (eu não consido chamar de Beijing) e o isolamento da China até que os chineses se rendam ao Ocidente.

Em fase em que o blog tá num fluxo mais de assuntos de publicidade do que políticos também não poderia deixar passar a postagem do publicitário Casa do Galo – a imagem é de lá:

Ainda no começo da década de 90 a publicidade cubana como um todo sofreu uma pequena abertura. Grandes empresas estrangeiras possuem anúncios em alguns meios, mesmo sendo fonte de muitas críticas por parte de alguns cubanos, que alegam ser antiético anunciar produtos que a população local não teria condições de comprar. É quase uma contravenção social, afinal, o povo cubano em geral é muito pobre (mesmo o seu ex-presidente sendo um homem mais rico que a rainha da Inglaterra). Lá existe até um sindicato dos propagandistas, o que mostra uma boa evolução neste sentido.

Ezequiel Vieira

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Pesquisas e a pintura da realidade ao sabor do que se crê

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tecnologia sozinha não faz política!

Vai saber se alguém chegou a mudar a proposta de tcc com medo de que alguém roubasse a idéia. Mas teve quem se sentiria mais a vontade se a conversa de orientação com a professora fosse bem ao pé de ouvido. Se possível, com hora individual marcada. O que tinha de mais interessante na massante aula de Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação, vulgo pré-tcc, era todo o cuidado quando era apresentado o que se pretendia estudar.

No primeiro dia de aula ao ritual de cada um dizer seus os nomes se somou a apresentação da idéia de projeto que eventualmente alguém já tivesse: todos tinham nome… mas qualquer criança de dois anos saberia contar quantos vinham com um tema já definido. No final do período veio a pergunta:

- Tem mesmo que apresentar, professora?

- Tem sim. Vale nota.

O resultado foi que fiquei sabendo em primeira mão as intenções de pesquisa na Ufes para este 2008/1:

Projeto de criação de uma agência de comunicação; plano de comunicação para um negócio da família; alguma coisa sobre como a imprensa trata da prostituição; o quanto as assessorias de mercado imobiliário pautam o jornalismo; a defesa da tese de que a comunicação interna das empresas ainda é deficiente; a evolução do reposicionamento de imagem de Lula ao longo de suas candidaturas; a evolução do desing de capa da revista Rolling Stone; o jornalismo cultural 2.0 etc etc.

Um levantamento iria mostrar um grande aumento de estudos relacionados à internet, apesar de que neste semestre não parecem ser tantos quantos foram no período passado. O que mais me chamou atenção mesmo é um projeto de uma colega que pretende avaliar se o ambiente digital pode ser suporte de ação para os movimentos sociais – bem na lógica binária do tudo ou nada pelo o que entendi.

Acontece que ela não tem uma tese que pode vir ou não a ser comprovada pela pesquisa. A colega tem um fato sobre o qual ela vai escrever. A tese/fato é cheia de problemas e de convicções que querem virar dado da realidade assim como dois e dois são quatro, o Brasil é pentacampeão mundial e Lula é o atual presidente brasileiro. Existe a crença de que a internet não pode ser usada como meio de mobilização política. A evidência mais gritante seria vista pelo o que as pessoas mais acessariam: sexo, sites de relacionamento, programas de bate-papo, entreterimento a não mais querer etc.

04/05/06 – É possível sim organizar movimentos pela internet. Estive presente em um Congresso no Rio semana passada e pude ouvir uma palestrante falando exatamente sobre isso.

Minha grande pergunta é/foi: Mas foi a internet quem trouxe essa tal massa alienada? A partir de que momento a intensidade do envolvimento político, tal como a projeto de pesquisa parece idealizar, foi satisfatória o bastante a ponto de que um possível retorno a essa tal realidade pudesse resgatar o presente de sua fragilidade a ser robustecida e ilustrada politicamente? Não sei se o autor vai constar na bibliografia da pesquisa mas Manuel Castells é insistente ao afirmar que a internet não reinventa a roda; ela desenvolve e potencializa aquilo que a a sociedade já tem.

01/06/07 – É inegável que “a luta reacendeu com uma força fantástica com o advento da internet”.

A digitalização traz uma matriz distribuída. Um novo paradigma que se caracteriza pela horizontabilidade cooperativa”. Descobrir novas formas de narrativas e de se fazer política se faz necessário. Os modelos anteriores parecem esgotados.

Uma evidência mais metodicamente encontrada sobre a alienação que a técnica promoveria seriam os dados de uma pesquisa feita com líderes comunitários de Vitória. A própria colega buscou saber o quanto de aglutinação em rede esses líderes promovem. A começar que o próprio uso de telefone parece ser luxo – luxo que até minha vó tem, ela que mora no distrito de Timbuí do modesto município de Fundão.  Email, computador próprio, acesso à internet parecem ser coisas mais do que restritas ao mundo daselite.

O problema desse tipo de pesquisa é que ela pinta a realidade ao sabor daquilo que já se tem como crença e/ou fato – o que acaba por sumariamente eliminar os dados que possam apontar outra coisa. Na verdade a questão é outra.

Esse tipo de pensamento que tanto costuma dizer que busca inspiração em Milton Santos deve ter feitos sim uma ampla leitura daquilo que ele escreveu. Da mesma forma que ouço gente dizer que é marxista sem nunca ter passado da orelha de O Capital. “Pelo menos tenho ideologia”, dizem. Sim. Ideologia ingênua e incompente do “ouvi dizer”. Também ouvir dizer que era verso bílblico algo como de “mil passarás mas de dois mil não passarás”. Mal e porcamente li a bíblia três vezes e nunca achei tal profecia que errou em pelo menos oito anos…

Milton Santos faz sim uma contundente crítica à globalização, que ele caracteriza como uma tirania da informação e do dinheiro que promovem exclusão e desencadeiam violências sistêmicas. Mas ele tá longe de atribuir à técnica em si a determinação para qualquer tipo, ou para qualquer escala, de ação política.

21/05/07 - A fala de Giuseppe se encerra com uma questão em aberto e ao mesmo tempo retórica. De que forma se pode fazer com que a sociedade seja cidadã, e por fim produtiva, se de forma maciça ela não tem acesso aos meios de produção para fazer circular o seu trabalho na lógica de redes, uma vez que – como tanto frisa Vilches com boa dose de ceticismo – a internet traz uma técnica com grande horizontabilidade e potencial democrático, mas a intenção política é pré-requisito espinhal para que essa virtualidade democrática se materialize (ou se atualize – para se opor ao conceito de virtual).

Para o bem ou para o mal é o mesmo Milton Santos quem escreve que “é o homem quem fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido, por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente realizadas.”

Ou seja, Tec-no-lo-gi-a so-zi-nha não faz po-lí-ti-ca.

A grande questão é a ser problematizada é saber por que, uma vez podendo, esses tais líderes comunitários não usam as novas tecnologias como novo suporte de ação. Nesse contexto a entrevista publicada em setembro passado cai como uma luva – “Temos muitas possibilidades, mas pouca vontade de agir”.

3. Até que ponto as TICs [teconogias de comunicação e informação] vem sendo usadas pelos movimentos sociais como instrumento de mobilização política? Quais os principais avanços e desafios podem ser identificados?

Creio que as TICs sejam potencialmente revolucionárias na capacidade de dispor conteúdos para além da pauta hegemônica, conectar pessoas mundo afora, reforçar comunidades, contradizer “verdades”, articular movimentos etc. Mas acho que vivemos um paradoxo: temos muitas possibilidades de ação, mas pouca vontade de agir. Parece-me que falta projeto de transformação capaz de mobilizar a maioria. Vive-se um desencanto com a política de verdade, aquela, nas palavras de Milton Santos, capaz de pensar as mudanças e criar as condições de torná-las efetivas.

Esse déficit gera a pauta da “política da vida” (Bauman), em que a nossa agenda é sobreviver, cuidar do próprio destino, como se fosse possível estar insulado num oceano de problemas coletivos. De qualquer maneira, toda revolução só se faz por processo e por educação. Ter tecnologias que somam e potencializam esse projeto já é algo a se destacar. Ter movimentos sociais e articulações várias usufruindo dessas tecnologias é um bom sinal. É mostra de que em uma realidade hegemônica renovada em suas estratégias, novos caminhos contra-hegemônicos se estabelecem.

O grande lamento a ser feito, ou melhor, o grande ponto a ser problematizado e superado é essa política míope que ainda carrega no andar o peso e o tilintar do maquinário e o cheiro da oleosidade industrial.

25/05/07 – Uma outra mudança estrutural do modo de se fazer política seria desencadeada a partir dos movimentos zapatistas, de Seatle e fóruns sociais mundiaisver texto ‘Auto-Organização da Inteligência Coletiva Global – Uma estratégia para o movimento pós-Seattle-Gênova por Franco Berardi (Bifo)”.

Ainda no que Milton Santos escreveu

“Os sistemas técnicos de que se valem os atuais atores hegemônicos estão sendo utilizados para reduzir o escopo da vida humana sobre o planeta. No entanto, jamais houve na história sistemas tão propícios a facilitar a vida e a proporcionar a felicidade dos homens. A materialidade de que o mundo da globalização está recriando permite um uso radicalmente diferente daquele que era a base da industrialização e do imperialismo.

A técnica das máquinas exigia investimentos maciços, seguindo-se a necessidade e a concentração dos capitais e do próprio sistema técnico. Daí a inflexibilidade física e moral das operações, levando a um uso limitado, direcionado, da inteligência e da criatividade. Já o computador, símbolo das técnicas de informação, reclama capitais fixos relativamente pequenos, enquanto seu uso é mais dependente da inteligência. O investimento necessário pode ser fragmentado e torna-se possível sua adaptação aos mais diversos meios” – grifos meus.

09/05/07 – A luta política hoje não se fará entre entre direita e esquerda, mas entre quem vê televisão sem uma resposta e quem adere a Net com uma informação muito mais completa e que todos podem gerir e alimentar – Derrick de Kerckhove.

Ezequiel Vieira

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Google X Microsoft e a hipocrisia na disputa pelo Yahoo!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Update – 12/02. Nunca encontrei tantas notícias de fusões e aberturas de capital quanto agora. Isso pode ser porque agora minha atenção está voltada para esse assunto. Mas também essa monopolização de mercados cada qual na sua área de atuação possa indicar a intensificação de uma mudança que passou de um mero flerte à alguma coisa mais intensa e estável – palavra em extinção num cenário sempre caracterizado como volátil. Daqui a duas semanas publico uma postagem sobre esse tema de fusões – no lugar de crescerem o que de fato acontece é que as empresas estão encolhendo.

Mas o que de fato interessa neste post é sobre a compra do Yahoo! pela Microsoft. Por ora, o Yahoo! rejeitou a oferta. Eduardo Largos aponta nesse cenário a briga entre o roto e o esfarrapado – ou, biblicamnete, entre quem tem a trave no olho e ainda assim insiste em encarar o cisco no olho do outro.

Largos comenta que o Yahoo! tá meio como espectador no que na verdade “poco a poco está mutando para convertirse en una extraña batalla entre Google vs. Microsoft con un intercambio de declaraciones oficiales y un “pequeño” Yahoo! que queda en el medio“.

Nesse brincadeira toda de quem não somente péga, mas se casa primeiro, a auto-estima do Yahoo! vai indo muito bem. As ações da empresa voltaram a subir verticalmente mês passado depois de um 2007 recatado e das projeções para um 2008 pouco promissor – as ações da Microsoft estão em queda. Aliás, segundo o Google Trends, a Microsoft tem despertado pouco interesse nas pesquisas feitas pelos internautas: no mês de janeiro a empresa contou com uma estabilidade linear enquanto o Google e o Yahoo ficaram trocando de posições.

  • Eis algumas picuínhas cínicas

- O Google acusou a Microsoft de querer formar um monopólio

- A Microsoft teria devolvido dizendo que não é ela quem domina 75 das buscas patrocinadas “el 65% del mercado de búsquedas en Estados Unidos y 85% en Europa.”

- O pouco inocente Yahoo! agora estaria disposto a reconsiderar uma aliança proposta pelo Google meses atrás.

Via ALT1040

Ezequiel Vieira

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Novas formas de produtividade no “Comunismo das Redes”

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Os atuais estatutos de trabalho estão cada vez mais precarizados.

Em março passado o professor de jornalismo digital daqui da Ufes, Fábio Malini, defendeu sua tese de doutorado na Federal do Rio de Janeiro – O Comunismo das Redes. Sistema midiático p2p, colaboração em rede e novas políticas  de comunicação na Internet (pdf).

A defesa fundamental da tese vem de uma citação de Derrick de Kerckhove para quem a luta política hoje não se fará entre entre direita e esquerda, mas entre quem vê televisão sem uma resposta e quem adere a Net com uma informação muito mais completa e que todos podem gerir e alimentar.

Acesse mais na postagem “A fuga das fábricas, o encontro nas redes”. Eis um trecho

A empresa, e não mais a fábrica, se moderniza e se modifica em uma dinâmica de redes. Se a questão do trabalho assalariado não é mais mecanismo fundamental de integração social, Cocco destaca que temos de pensar então esse mesmo elemento como ponto de partida para que uma lógica de inclusão se estabeleça. “A cidadania não é mais o resultado a ser alcançado, mas o ponto de partida para que o comum se constitua e haja na sociedade uma mobilização produtiva”.

O que fazer? A democratização para o crescimento e o crescimento para algo

A constituição da cidadania seria a condição pressuposta para uma política econômica que, digamos assim, esteja de acordo com a lógica de produtividade de riqueza hoje. Isso parte da constatação, um tanto óbvia a partir da discussão feita no seminário, de que “desenvolvimento econômico que não debater a nova economia, que se pauta pela produção imaterial, não pode ser chamado de desenvolvimento econômico.”

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Aumento da web 2.0 corporativa ainda é tí­mido

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Faltou deixar claro de que países são as empresas avaliadas na pesquisa, mas por si mesma ela traz um dado importante, indicando uma mudança que acredito que será lenta mas que tem tudo pra ser contínua - 25% das empresas entrevistadas pela ChangeWave usam algum tipo de mídia social, web 2.0. Outros 8% teriam intenção de seguir pelo mesmo caminho ao longo de 2008.

Outro dia comentei por aqui que na onda dessa mudança de logomarca, teve gente passando por aqui para saber se a Vale também mantém blog. Não. Ela ainda não tem e também não sei dizer se tem planos para tal.

A única iniciativa, vá lá, social, mencionada acima que encontrei, é a ferramenta Rss – de tão comum sites afora, nem sei se deve ser levado em conta. Mesmo assim aqui temos uma lógica de distribuição unidirecional e não de interação. Na palestra do Foco “O que é comunicação estratégica nas organizações?” foi perguntado à Ivone Oliveira a quantas anda o uso das novas ferramentas de comunicação pelas organizações – ela é autora de um livro (comentário) que também acabou batizando a palestra. Ivone respondeu que são poucas as empresas que fazem o uso de blogs, wikis e afins.

Também de olho nas mudanças que a internet provoca e potencializa, Don Tapscott reavalia exponencialmente a crucial interação a sempre ser estabelecida com o consumidor, ou, num âmbito mais geral, os públicos-alvos da organização. Ele setencia em tom apocalíptico que “as empresas que não incorporarem as tendências de interação surgidas com o advento da internet correm o risco de morrer”. A argumentação de Tapscott está em seu livro “Wikinomics – como a colaboração global está mudando tudo” também comentado pelo ValorCompartilhando é que se recebe.

O Fábio Cipriani pinçou um caso em que, sem mencionar o nome, uma grande corporação há um ano que estaria procurando um profissional para gerenciar seu blog e sua rede social, mas sem sucesso. Ou a tal empresa não procurou direito ou é blefe pra, por enquanto, não chamar ninguém.

Com: Blog Corporativo

Acesse também

30/07/07 – Marcas globais e o feeling para se anteciparem às mudanças

05/12/07 – Empresas e a resistência às novas mídias

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“A empresa em rede concretiza a cultura da economia informacional/global”

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Hoje termino de resumir o capítulo três, A empresa em rede, do livro A Sociedade em Rede. Já tinha lido outra vez mas agora percebi detalhes e informações importantes que se me perguntassem, mesmo tendo lido, não saberia responder. Depois do resumo ainda falta fazer o meu próprio texto do capítulo.

Um dos trechos que achei mais importantes, bem a título de fichamento, foi quando Castells sintetizou em linhas gerais quais são as características que fundamentam a economia da informação

Por que a empresa em rede é a forma organizacional da economia informacional/global?

- Organizações bem sucedidas são aquelas capazes de gerar conhecimentos e processar informações com eficiência;

- Adaptar-se à geometria variável da economia global;

- Ser flexível o suficiente para transformar seus meios tão rapidamente quanto mudamos objetivos sob impacto da rápida taransformação cultural, tecnológica e institucional

- e inovar, já que a inovação tornar-se a principal arma competitiva.

Esses são, na verdade, as características do novo sistema econômico. Nesse sentido, a empresa em rede concretiza a cultura da economia informacional/global: transforma sinais em commodities, processando conhecimentos.

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“Ser querido é a diferença para os concorrentes”*

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Update 04/01/08. Uma empresa que vai, ou é, muito mais do que uma simples produtora de minério de ferro. Numa sociedade de imagens, ou do espetáculo, como é título de livro e outros também ecoam, o investimento em torno do intangível se opõe diretamente ao que estrutura a produção da Cia e é a nova aposta da Vale.

Nessa semana assisti ao novo comercial da empresa: a peça reúne várias personalidades, apenas imagens, sem fala, que fizeram e ainda fazem sucesso no Brasil e no exterior: Tom Jobim, Santos Dumont, Carlos Drummond de Andrade, Hortência, Vinicius de Moraes, Robert Scheidt, Sebastião Salgado, Ayrton Senna, Daiana dos Santos, Jorge Amado, Di Cavalcanti, Marta, Torben Grael, Ivo Pitanguy, Villa-Lobos, Fernando Meirelles e Garrincha.

Enquanto as imagens passam eis o refrão da letra da música de fundo. O comercial também tá no Youtube.

Essa é minha vida

É minha paixão

Por mais que eu lute pra ser quem eu sou

Não importa a distância

Leve o tempo que for

O que importa é essa força que me leva onde eu vou

E então colorir esse mundo

Como nunca se viu

Com as cores do nosso Brasil

No final, a voz de Fernanda Montenegro faz aquele tipo de pergunta onde vc quer mais que se confesse do que para que algo seja, digamos, esclarecido:

“É possível fazer sucesso no mundo sem nunca deixar de ser brasileiro? Sim. Vale, transformando minérios em sonhos possíveis.”

Mas alguma coisa tinha que ter de concreto desse discurso todo aí. O projeto de construção de uma imagem não pode ficar muito distante da identidade que de fato se tem. Das empresas brasileiras que atuam no exterior, a Vale está presente em um maior número de países, 32. Em seguida aparecem na fila a Petrobras, 24, e a WEG, com presença em 20 deles – esses dados estão no suplemento “Valor Multinacionais Brasileiras” publicado no começo do mês (imagem acima). Além disso, em 2007 a ex-CVRD passou a ser a empresa com o maior valor de mercado pelas bandas de cá.

Uma matéria do The Wall Street Journal republicada pelo Valor Econômico nesta semana avalia que as identidades corporativas podem ser um importante fator na motivação de empregados e no convencimento de governos em torno dois ações da organização também. Mas, no caso da Vale, aponta a matéria, uma marca forte pode também ajudar a determinar quem domina um mercado mundial que foi recentemente tomado por uma onda de fusões. Neste Olimpo em que é difícil determinar quem de fato domina ou está em vias de dominar, a Vale está apostando que algo tão intangível quanto uma marca para ajudá-la a superar as batalhas da consolidação.

“Somos número 2 e sonhamos em ser número 1″, diz Roger Agnelli, presidente da empresa. Neste sentido, a principal tarefa da Lipincott, agência de Nova York focada na estratégia de marcas, “foi tentar reposicionar a Vale de companhia brasileira de minério de ferro para marca global em expansão”, conta James Bell, um dos sócios da agência.

Trechos da matéria

Quando se trata de criar personalidades corporativas bem definidas, a mineração ficou tradicionalmente atrás de outros setores. As fabricantes de químicos DuPont, Dow e Basf, por exemplo, têm marcas reconhecidas sustentadas por campanhas populares. Um motivo para o atraso das mineradoras nesse aspecto pode ser geográfico.

“Como a maioria das grandes químicas e petroquímicas são empresas americanas ou européias que operam em locais mais habitados e interconectados, elas tiveram de ser mais atentas à reputação e à opinião pública em geral“, diz James Bell. “A indústria mineradora, por sua vez, tendeu a ter sede na Austrália, Canadá e Brasil e operava nas áreas mais remotas do planeta. Isso fez com que não enfrentassem o mesmo nível de interesse — e vigilância — do público.” [O negrito é meu]

* A frase é de Olinta Cardoso (foto), diretora de comunicação institucional da Vale e encarregada da promoção da nova marca.

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