Eis mais um artigo ou, para ser mais exato, eis mais um trabalho de final de semestre. Feito para a discisplina Internet e Jornalismo Cidadão, este é o trabalho final feito com a colega Camila Fregona.
O artigo segue abaixo na postagem. Quem preferir também pode fazer download.
Resumo: O presente artigo faz uma avaliação das
práticas de blogs metropolitanos das cidades de São Paulo e do Rio de
Janeiro. Antes, são feitas considerações sobre o contexto social
contemporâneo que possibilita essa prática em redes virtuais desde uma
perspectiva pela qual a produção de comunicação e cultura se torna cada
vez mais democratizada e sua distribuição e acesso se torna também mais
facilitados.
Palavras-Chaves: Redes Sociais; Blogs metropolitanos; Subjetividade; Sociedade em Rede; Jornalismo hiperlocal
Blogs metropolitanos: “É hora de construir bairros na rede”
Lorenzo Vilches (2003) identifica que com a introdução da indústria
e do mercado, a partir do século XVI, o intercâmbio do conhecimento
passa a experimentar grandes mudanças na estratégia política e cultural.
O acesso ao saber, que antes era restrito ao um detentor do
conhecimento, se dispersa, se espalha e se globaliza a partir de quatro
estágios básicos propostos pelo autor:
- Generalização do consumo de bens que incluem conteúdos de
conhecimentos impressos e escritos. A mídia clássica nesta fase é o
livro. - Redução do tempo entre produção e consumo de conteúdos. Nesta fase coexistem o telégrafo, o telefone e o rádio.
- Capacidade de representar o conhecimento e a informação por imagens.
- Síntese dos suportes anteriores numa rede de interfaces.
InteraCamila Fregonatividade e digitalização. É importante lembrar que
os estágios anteriores não se excluem, mas se intercambiam.
Vilches está entre os autores que apontam esse último estágio como o
catalisador de uma crise do modelo clássico de comunicação em seus
fundamentos teóricos e práticos. De forma resumida, o modelo clássico
da lógica linear emissor > mensagem > receptor entra em colapso. Potencialmente, todos são produtores de conteúdos nesse novo suporte virtual.
Sociedade do conhecimento para uns. Sociedade da informação para outros. Ou mesmo sociedade em rede ou tecnológica.
O modo de apreender tem suas especificidades e nuances, mas o fato em
questão é o mesmo. Potencialmente, toda a sociedade é posta ou se vê em
condições de produzir. Os meios para distribuir essa produtividade
antes estocada, não mais estariam restritos a um pequeno grupo que
detém os modos de produção de riqueza. Para a fase contemporânea, a
riqueza agora se estrutura e se estabelece em sua produtividade por uma
lógica comunicativa e informacional.
Neste contexto, o conteúdo produzido nas margens, a partir do
usuário comum, passa a protagonizar o que vai se constituir na chamada
web social, que resulta das interações feitas em rede. Obra que, como
lembra um dos diretores do Yahoo!, Ricardo Baeza-Yates, (2007) “va
mucho más allá de las fotos y videos”.
Diante dessas mudanças que as novas tecnologias de informação e
comunicação [TICs] provocam e potencializam, o que Da Cruz (2006) busca
problematizar é como a atividade jornalística é afetada e se
reconfigura. O autor lembra que as TICs estão gerando “nuevas formas de
relacionamiento entre los periodistas y el público, y el público mismo
ha tomado a su cargo tareas periodísticas.” (Da Cruz, 2006. p. 1)
Duas seriam as características fundamentais desse novo formato de
jornalismo. Ele obedeceria a um estilo mais conversacional e, portanto,
se vê muito mais afetado por aquilo que o público diz. Percebe-se outro
ponto fundamental logo na primeira citação feita por Da Cruz em seu
artigo: “La mayoría de la gente (…) no tiene tantas horas diarias para
leer la web, y quiere que alguien le diga rápida y sucintamente lo que
necesita saber.” Essa não seria a descrição da atividade de cartografia
de que Jesús Matin-Barbero analisa em seu livro “O Ofício de Cartógrafo
[travessias latinoamericanas de comunicação na cultura]”, sobre o novo
papel a ser desempenhado para que caminha o jornalismo?
Nesse novo cenário, o jornalista deixa então de exercer o papel do
único provedor de informação. O leitor agora também quer interferir no
conteúdo. O link Editar das plataformas wikis é bem paradigmático nesse
sentido. O momento indicaria o jornalista muito mais relacionado a
desempenhar o papel de organizador de conteúdos, o jornalismo
cartógrafo, do que o de ser porta-voz da verdade. Talvez, no fim, essa
seria a repetição de uma velha atividade atribuída ao jornalista -
organizar a realidade, o caos, cartografar os acontecimentos, enfim,
reunir “rápida y sucintamente lo que necesita saber .” (Da Cruz, 2006.
p. 01)
Mas se o jornalista caminha para o ofício de cartografia, como pode
ser caracterizado o que as pessoas, digamos, comuns/amadoras, produzem?
Tanto para um quanto para o outro, Da Cruz lembra que existem nomes
diferentes e que também expressam formas diferentes de agir dentro
desses dois meta-ofícios.
…. periodismo ciudadano, participativo, cívico, social,
de fuente abierta, comunitario o periodismo 3.0 (de tercera
generación). Las denominaciones no son sinónimos sino que, con matices,
los adjetivos califican fenómenos contemporáneos que potencian el
protagonismo de lectores o audiencias, o aún su autonomía. Según cómo
se instrumente el concepto, según en qué actor se ponga el acento, la
potenciación sucede en los marcos de los medios tradicionales o va por
fuera de los mismos, ligado a las tecnologías digitales. (Da Cruz,
2006. p.2)
Seria esse o caso de os jornalistas serem mais editores do que
propriamente jornalistas em seu sentido até aqui entendido? Varela
(2007, Online) indica que um aspecto fundamental nesse contexto é a
nova forma de valoração da informação. O autor vai diferenciar esse
valor a partir de dois momentos. A chamada era da escassez e, agora, a
era da abundância.
Na escassez o valor da informação era estabelecido a partir da
dificuldade de se conseguir notícias atuais e verdadeiras. Na era da
abundância, Varela aponta que o problema não é a falta de informação.
Agora se tem para todos os gostos, espalhada pelos grupos de estilos e
afetividades formados e potencializados pela internet. A atitude de
agora seria a de apurar, cartografar qual é a informação mais valiosa e
fazer uma reelaboração para que todos, e não apenas um grupo em
particular, possam saber.
2. Metroblogs
Metroblogs basicamente são diários que têm como função fazer uma
crônica da cidade. Varela (2007) lembra que quando se pensa em cidades
pequenas, nos povoados, nos bairros, nos lugares onde se desenvolve a
vida cotidiana das pessoas normais, os meios de comunicação até podem
fazer uma cobertura da vida cotidiana, “mas não suficientemente a
fundo”. O autor ressalta também que a profundidade a que podem chegar
os meios de comunicação tradicionais e as redações profissionais,
quando se trata de assuntos cotidianos das comunidades mais próximas do
cidadão, é escassa.
Em entrevista ao jornal A Gazeta, o diretor de jornalismo da TV
Gazeta, afiliada da Rede Globo no Espírito Santo, Abdo Chequer, também
parece reconhecer essa limitação de alcance da pauta e apuração do
jornalismo tradicional. “Atender aos interesses da comunicação com
jornalismo hiperlocal é muito interessante, mas intelectualmente, me
parece carente.”
Não ficou claro ao longo da entrevista como, em que medida e
referente exatamente a que, ou a quem, aconteceria essa limitação
intelectual do jornalismo hiperlocal. O fato é que os acontecimentos do
que também se convencionou chamar de informação microlocal, não podem
ser encontrados nas páginas dos jornais. A maioria desses veículos,
aponta Varela, “não conta com a redação suficiente nem com páginas
necessárias, além de não supor que esses acontecimentos e informações
sejam importantes.” (Varela, 2007. p. 44)
Para superar esses furos no tecido informático local surgiram os
meios cidadãos, ou colaborativos, hiperlocais, exemplificados neste
artigo pelas experiências de blogs metropolitanos do Rio de Janeiro e
de São Paulo. Os chamados metroblogs têm entre suas características
estruturantes o fato de que a informação provém basicamente das
colaborações de vizinhos ou pessoas comuns, interessados no que ocorre
nas comunidades locais ou mesmo na cidade como um todo, mas sob uma
outra perspectiva de abordagem.
Mas esse jornalismo hiperlocal não vem refutar ou deslocar os meios
de comunicação tradicionais. O objetivo fundamental indicado por Varela
é “ser complemento e preencher o vazio existente pela dificuldade e
carência de se cobrir com métodos e jornalistas profissionais os
acontecimentos de menor importância da atividade social e cidadã”.
(Varela, 2007. p. 46)
Henrique Antoun, professor do Programa de Pós-Graduação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, também compartilha dessa
perspectiva da não substituição dos meios. Em palestra em Vitória no
seminário “A Constituição do Comum” (Maio de 2007) ele argumentou
que os blogs não vão fazer com que os veículos tradicionais
desapareçam. Isso porque, lembra, a lógica que os mantém são bem
diferentes. “O veículo publica o preconceito de sua audiência. Você só
arregimenta as massas a partir de grandes preconceitos. Ela [a massa] é
mantida dócil pelos meios de comunicação fazendo com que ela desconfie
de sua capacidade de ação.”
A estrutura dos blogs se destoaria no sentido de que eles não
representam uma comunicação para os outros. Seria antes uma perspectiva
a partir do mundo de quem produz, o que leva ao necessário
reconhecimento no enunciado do sujeito produtor de seus discursos.
Muito diferente dos efeitos de objetividade e realidade buscados pelo
jornalismo tradicional, pois conforme lembra Ramaldes (1997, p.4).
“Além de produzir efeito de verdade objetiva, o jornal, com a aparência
de afastamento, evita arcar com a responsabilidade do que é dito, já
que sempre transmite a opinião dos outros, o saber das fontes”.
3. Estudo de caso
3.1. Metroblogging Rio de Janeiro
Este exemplo de blog metropolitano faz parte da plataforma
Metroblogging Network, que possui atualmente 52 páginas¹. Destas, 29
estão na América do Norte, 12 na Ásia, oito na Europa, duas na Oceania
e apenas uma na América do Sul. O único representante sul-americano é o
blog da cidade do Rio de Janeiro, que será apresentado a seguir.
O Metroblogging, como o próprio portal se define, é escrito da
perspectiva de pessoas que vivem, trabalham e divertem-se na cidade
todos os dias. É uma oportunidade de saber mais sobre o Rio de Janeiro,
através das experiências compartilhadas pelos autores.
O Rio Metblog surgiu em 30 de
junho de 2006. Em 17 meses já conta com 815 posts e quase três mil
comentários. Em seu primeiro post, já fica claro o caráter informal que
estará presente nos textos.
“O Rio Metblog nasceu no Lamas, bar/restaurante que fica
no Flamengo. Nunca fui muito com sua cara, para o desespero de amigos,
conhecidos e outros. Ele parece ser uma unanimidade, por ser um lugar
bacana, com comida e bebida boas e aberto até altas horas.Mas ontem, enquanto nos reuníamos e imaginávamos as possibilidades deste blog carioca, observei o Lamas diferente. (…)
O Lamas tem 133 anos e fica na Marquês de Abrantes 18. O manual diz
que fica aberto até às 3hs, mas isso pode ser negociado”. (Lamas.
Escrito por Marcelo Nóbrega, em 30 de Junho de 2006)
O blog é dividido em 28 categorias:
Ar livre, Bares, Bizarrice, Coisas, Comida, Cultura, Dia,
Esporte, Eventos, Exposições, Futebol, Internet, Jornais, Lugares,
Música, Na rua, Natureza, Noite, Notícias, Pessoas, Poesia, Política,
Praia, Rádio, Restaurantes, Só rindo…, Shows e TV.
Nelas, existe a preocupação de representar a cidade na Rede, junto
com assuntos bem gerais cuja abrangência possibilita que se escreva
qualquer coisa pelo critério do que se queira no momento.
Rio Metblog é escrito por
- Ilka Porto [ser humano dotado de olhos, boca, ouvidos, nariz, cérebro e coração. Não necessariamente nessa ordem],
- Luiz Paulo Rocha [um artista plástico que perde seu tempo escrevendo de graça pra esse blog],
- Alexandra Wiltshire [estudante de Tradução na PUC-Rio, cantora,
compositora, carioca e moradora da aflita cidade do Rio de Janeiro] e - Letícia Novaes [papel de carta].
De acordo com a descrição pessoal de cada autor, o leitor pode
conhecer um pouco sobre a personalidade de cada um e reconhecer também
as características que permeiam cada texto, mesmo sem observar o nome
que assina cada post.
A formação dos autores influência bastante a forma de cada um
escrever. O Rio Metblog possui posts com caráter literário, outros em
que o fato é um olhar diferente sobre a paisagem da cidade,
diferenciando assim as narrativas, em histórias que vão desde pequenos
ensaios, até registros pessoais ou verdadeiros desabafos diante do caos
da cidade.
Em cada pequena história, curiosidades da cidade – algumas que
provavelmente só os cariocas entendem, outras que o visitante precisa
conhecer minimamente a cidade para poder visualizar a cena descrita.
Outros posts retratam traços marcantes da personalidade e da linguagem
oral do carioca. Essas peculiaridades ressaltam o caráter hiperlocal do
meio.
“SÁBADO, FIM DE TARDE, SOL SE PONDO EM IPANEMA.
POSTO NOVE.TODOS: Clap, clap, clap, clap, clap… [aplaudindo o pôr-do-sol]
LEK 1, COM LÔRA BOAZUDA A TIRACOLO: Qualé, merrmão, já vai vazá já?
LEK 2, ALISANDO O ABDOME SARADO: Pôôô… Acho que já vou chegar já, irrmão.
BROU, COM BOLA NO PÉ E AÇAÍ NA MÃO: Belê, lek. Aquela parada nem rola, então, né?
LEK 2, ALISANDO A NUCA: Aê, brou… Acho que nem. Fica bolado?
BROU, COM AÇAÍ NO PÉ E BOLA NA MÃO: Trank… Marr tá ligado que tu tá deveno, né, xóqui?
LEK 2, ACENO DE TORCIDA, GANGUE, COMANDO OU QUALQUER COISA QUE OS IDENTIFICA COMO TURMA: Valeu. Força aê, fui.
LEK 1, CABEÇA COM CABEÇA DO BROU: Já vô chegar já tamém, brou. O sol já foi já. Formô?
BROU: Já é. Tamém tô vazando.
LEK 1, TAPINHA NA BUNDA BOAZUDA DA LÔRA: Tu vem comigo.
LÔRA BOAZUDA: …
TODOS SOMEM NO HORIZONTE.
EU: Clap, clap, clap, clap, clap…
(Licença mau-humorética que logo passa com um bom banho de mar. No Leme, claro)”.
(Ela é carioca. Escrito por Maíra Abrahão, em 20 de Julho de 2006)
“E viva a Lisboa de Portugal que nos legou esse sotaque carioca
cheio de xizes e de erres e todos os santos e santas e todos esses
açougues, padarias e botequins que se chamam rainhas disso e reis
daquilo, sobremaneira as dúzias de variantes em torno do bacalhau, seja
o Rei do Bacalhau, seja o Bacalhau do Rei, seja ainda este Império do
Bacalhau e aquele Bacalhau Imperial, príncipes e princesas do Reinado
do Bacalhau e todas essas nobrezas vagabas que se estampam nos
letreiros e nos cartazes da cidade, inclusive o da Padaria Santa Marta,
na Fonte da Saudade, que anuncia em promoção 88 bolinhos de bacalhau,
tudo aos módicos 88 reais e 88 centavos”.(Salve meu nobre. Escrito por Luiz Paulo Rocha, em 08 de Novembro de 2007)
Em todos os textos, o sentimento de quem o escreveu está muito
explícito, seja no prazer de falar das experiências positivas na cidade
ou no repúdio a algum problema vivenciado pelo Rio e seus moradores.
Por parte do leitor, fica a possibilidade de se encantar ao ver uma
cidade mundialmente conhecida, como o Rio de Janeiro, descrita pelas
pessoas que vivenciam a realidade local dia a dia e não somente por
manchetes, muitas vezes tendenciosas, de jornais.
“No Brasil o carioca é conhecido, entre outras, pela
malandragem, o cara ‘exxxxperto’. Isso irrita muita gente de outros
estados que chega para visitar a cidade maravilhosa.Longe de ser uma especificidade local, vemos que até em países ditos
desenvolvidos, de “primeiro mundo”, como Grécia, Itália e Espanha, a
malícia e vontade de tirar vantagem em cima dos outros também é
constante.(…) Na verdade, onde tem turista, tem um bando de besta em potencial
e alguém querendo se aproveitar, pouco importa o lugar do mapa. (…)A malandragem é universal, mas os artifícios para exercê-la são
diferentes. (…) Pelo menos o europeu é mais pacífico na hora do roubo,
ou melhor, furto. E muito provavelmente não vai apontar uma arma na sua
cabeça. O que já é alguma coisa.”(Malandragem universal ou turista é uma merda. Escrito por Ilka Porto, em 16 de Outubro de 2007)
Em outros casos, são mostrados ângulos diferentes das tragédias
quase diárias que a mídia pontua. É quando o cidadão carioca, que
vivencia esses fatos e às vezes não se dá conta do que acontece ao seu
redor, assume o papel tradicionalmente legado ao jornalista e se torna
o sujeito que informa, com fatos reais, mais sentimento, além de
observações que vão muito além do lead.
“Ontem à tarde saindo de uma gráfica, ali no finalzinho
da Rua da Passagem, notei uma caminhonete toda queimada, vidros
estraçalhados em volta, ferragem retorcida, parecia até carro do Jó, aí
do post abaixo. Estava rodeada de curiosos e trazia ao redor aquelas
fitas amarelas da Defesa Civil. Na hora achei interessante aquele monte
de ferro destroçado. Hoje fiquei sabendo que o carro pertencia à
professora de catecismo Vitória Marques, que morreu quando seu carro,
um Santana Quantum, foi metralhado por assaltantes e explodiu em
seguida. Havia um padre com ela, que também foi atingido mas sobreviveu
aos tiros. Dona Vitória foi enterrada hoje no São João Batista e seu
caixão estava coberto com a bandeira do Botafogo”.(Tem coisas que também acontecem em Botafogo. Escrito por Luiz Paulo Rocha, em 04 de Dezembro de 2007)
Os traços da linguagem característica do carioca estão evidentes nos
posts. Essas marcas bem nítidas na fala, estão presentes também na
escrita. Os textos são produzidos sem o rigor da norma culta e, como
destaca Varela (2007), quanto mais oral é o estilo, mais os leitores se
sentem pertencentes ao meio, já que eles se identificam com pessoas que
escrevem da mesma forma como eles falam.
“(…) No ano passado, conheci uma paulistana que me pediu
ajuda pra entender minha cidade. Segundo a lógica de que toda cidade é
uma língua, por algumas horas virei professor desse idioma chamado Rio
de Janeiro. Mas como uma língua só se aprende na base da humilhação e
do erro, como diz uma amiga querida, dei à paulistana uns dois ou três
verbos, uma dúzia de bons substantivos, uma interjeição pra casos de
emergência e orgasmo (uma só pros dois casos) e mandei que comprasse um
mapa, numas de “Ó só, mina: isso aqui é a guerra, tá ligada?”(Cartografia Carioca. Escrito por Nuno Virgilio Neto, em 30 de Junho de 2006)
3.2. Sampaist
Um exemplo de blog metropolitano na cidade de São Paulo é o Sampaist.
É ligado a Gothamist LLC, que se considera a mais popular rede de blogs
de cidades na internet hoje. No entanto, segundo texto apresentado na
página principal da Gothamist LLC, a rede possui apenas 14 sites, em
cinco países. Como característica comum a todos os blogs
metropolitanos, essa rede nova-iorquina também prioriza as notícias
locais, eventos, comidas e entretenimento a fim de atrair a audiência
do público jovem.
O Sampaist é o único latino-amercano presente na Gothamist. Foi
lançado oficialmente em maio de 2006 e em menos seis meses já contava
com mais de mil posts. O blog segue o direcionamento da rede, como
percebe-se em sua auto-descrição:
Sampaist é um site sobre a cidade de São Paulo e tudo o
que acontece nela. Isso significa notícias, eventos, bares,
restaurantes, acontecimentos e opiniões.Como a cidade, o blog é multifacetado. Gostos (bem) diversos entre
os colaboradores, mas cada um na sua e com espaço para todos. Uma
paixão com objetivos em comum: textos agradáveis, críticas
contundentes, histórias bem humoradas e dicas imperdíveis. O Sampaist
fala para quem quiser ouvir. Não se dirige ao gringo perdido na
Paulista, nem ao paulistano que nasceu gritando “meu”. Você vai estar
lá em algum post. Seja você um daqueles que não perde uma garoa na
esquina da Ipiranga com a São João, ou um daqueles que não faz idéia do
que seja a 25 de Março.
Sampaist é atualizado diariamente, de acordo com o objetivo de
documentar a vida paulistana e todas as suas nuances. Possui um editor
(Leandro Meireles Pinto), um co-editor (Lucas de Oliveira Fernandes) e
nove colaboradores (Ana Carolina Monteiro, Athos Sampaio, Carlos
Augusto Gomes, Fernanda Fontes, Ligia Helena Sales Nunes, Luiz Horta,
Marcela Tavares, Mayara Geraldini, Renata Honorato). Nas apresentações
de cada participante, a relação pessoal com a cidade. Poucos deixam
claro qual é a profissão, exceto – Renata Honorato, que relata ser em
seu perfil “jornalista, apaixonada por música e cinema”.
O blog mantém certo nível de diálogo com os leitores, uma vez que em
seu texto de apresentação afirma que dicas ou idéias para novos posts
podem ser enviadas para o email de um dos escritores. Quanto à
participação, o blog afirma que está constantemente em busca de novos
colaboradores. Segundo a apresentação do Sampaist, para participar
bastaria amar a cidade de São Paulo e enviar um email ao editor.
O blog é dividido em 17 categorias
Aniversário da cidade, artes & eventos, carnaval, cinema,
comportamento, consum-ist, entrevistas, esportes, imagens da cidade,
internet, música, noite, notícias: SP, opinião, sabor da cidade, sampa
para menores, universo-ist.
Pelos temas, percebe-se que existe a preocupação de representar a
cidade da forma mais abrangente possível, para que o visitante possa
conhecer a capital paulista sob diferentes aspectos.
Mas, diferente do metroblog carioca, o exemplo paulista apresenta
textos mais informativos do que literários e direciona os posts para
assuntos que interferem diretamente no dia a dia da população. Isso
reforça o caráter de jornalismo feito por e para cidadãos.
Tá lá no site da prefeitura: convênio com o governo
Serra, assinado esta semana, garante a São Paulo mais 1.150 pessoas
para o Cidade Limpa — carro-chefe da administração Kassab.Os trabalhadores são bolsistas do Programa Emergencial de
Auxílio-Desemprego – Frente de Trabalho. Cada subprefeitura terá 150
bolsistas, que vão realizar mutirões de limpeza e de conservação em
ruas, praças e jardins.Todos vestindo o uniforme amarelo e azul que já foi tema de post
aqui e que, na imagem acima, quase foi promovido a crucifixo em missa
tucana, não é, não?
Na estrutura editorial aparecem inserções como “Vídeo” e “Imagem da
Semana” – retirados do Youtube e Flickr, respectivamente. O post, quase
diário, “Extra Extra!” traz as principais manchetes de São Paulo
publicadas por portais como G1, IG e Folha.
Referências Bibliográficas
¹ Não consideramos para esse estudo a categoria “Outros” presente na
lista. Essa categoria era composta por apenas 1 página, em 06 de
dezembro de 2007.
BAEZA-YATES, Ricardo. IN: “Internet é a nova realidade”, afirma diretor do Yahoo!. Acesso em 06/12/07
DA CRUZ, José. Periodismo Ciudadano: Ruído y Nueces. Acesso em 07/12/07
GOTHAMIST LLC. Acesso em 07/12/07
JORNAL A GAZETA. “A Sociedade perdeu suas bandeiras.” Disponível na Internet: Acesso em 06/12/07
MARTÍN-BARBERO, Jesus. O Ofício de Cartógrafo [travessias latinoamericanas de comunicação na cultura]. Editora: Loyola
RAMALDES, Maria Dalva. O discurso político sob o olhar semiótico.
Dissertação de Mestrado. Ano de Obtenção: 1997. Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, PUC/SP, Brasil.
RIO METBLOG. Acesso em 06/12/07
SAMPAIST. Acesso em 06/12/07
VARELA, Juan. Nuevos medios, nuevos periodistas. Acesso em 06/12/07
VARELA, Juan. Jornalismo participativo: o Jornalismo 3.0. IN. Blogs:
Revolucionando os Meios de Comunicação. Editora: Thomson Learning
VILCHES, Lorenzo. A Migração Digital. Ed. PUC-Rio, 2003.
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Comentários
Saudações Ezequiel,
O artigo é interessante. Já fiz o download e lerei depois. Para mim caiu como luva, visto que em fevereiro lanço um blog jornalÃstico para a cobertura dos fatos de um municÃpio, será bastante útil para a “prática” do projeto.
Sem dúvida, o conceito de esfera pública do Habermas está relacionado com a potencialidade da internet, no que tange a descentralização e pluralidade nos fluxos comunicacionais.
Hoje (12/12) o debate no mini-curso será sobre o ensino do jornalismo na Espanha, será um bom momento para repensar o nosso ensino.
Até,
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